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GG
Tenho uma peça de roupa com a qual muito
me identifico. Quando estou vestido com ela, minha personalidade
é transmitida ao primeiro relançe e as pessoas costumam
dizem que ela é uma extensão de mim. É mais
ou menos aquela curiosa curiosidade sobre os humanos, que ao pedir
que você imagine alguém, como o Roberto Carlos por
exemplo, eu pergunto se você se lembra dele de frente ou de
perfil. Ao ouvir o comando "de frente" você o vê
de pé, de frente, talvez com o microfone inclusive, e, ao
ouvir as palavras "de perfil", você instantâneamente
o coloca de perfil na sua mente. Comigo, ao pedir para alguém
se lembrar de mim, automaticamente a pessoa me imagina vestido,
e, geralmente, e com a tal roupa. Bom, concluindo de outra forma,
ela sou eu 100% algodão.
Com o passar do tempo, algumas manchas foram aparecendo
nela, claro, mas eu nunca consegui tirá-las. Achei que era
só esfregar, mas nada. Comprei produtos de pré e de
pós lavagem, mas não via resultado nem antes, nem
depois. Tentei lavanderia/tinturaria inclusive. Desde aquelas com
franquias internacionais, até a modesta loja familiar do
seu Myamura e sua filha muito simpática. Todos eles garantiam
resultados, citavam produtos e elogiavam os avanços tecnológicos.
Todos eles me devolviam criticando os malditos fabricantes e todas
as ineficázes latas velhas que possuíam. Enquanto
não muito perceptíveis, as manchas não me impediam
de usar a vestimenta, mas como consequência, mais manchas
apareciam, e às vezes até quando eu não a usava.
Ontem, ela voltou da minha última esperança
em lavagem. A devolução foi mais rápida do
que eu esperava, e o motivo estava claro: a peça estava intocada.
Dentro da grande sacola de logotipo de mesma proporção
havia também um bilhete escrito à mão na parte
interna de um pedaço de embalagem de sabão em pó.
As letras me perguntavam se eu já tinha lido a etiqueta da
roupa.
Não deixar de molho, não torcer,
secar à sombra, lavar as manchas com sangue.
® 2005 - Luís Eduardo E. Ribeiro
luisones@allflow.com.br
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