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Uma Graça
Estivesse sozinha, ou estivesse na academia, referia
a si própria no masculino. "Estou lisonjeado" "Estou
ferrado". Seus doze amigos e amigas já estavam acostumados,
e o segurança da academia usualmente achava que ouviu errado.
Bom dia, senhora. Como tem passado?
Muito bem, obrigado, responderia ela.
Alguns psicólogos explicam isso como desvio
de personalidade com pitadas de vontades reprimidas. Pessoas bem
menos diplomadas classificam isso sob o abrangente rótulo
de parafuso a menos. Seus, agora 11 amigos e amigas, acham isso
um barato. Tentam até chamá-la sempre por termos assexuados.
Grande, Meu, Ow, Por favor, Ei. Ela, risonha, pedia paciência
- Pera um pouco que estou ocupado.
Um dia, ela entrou no vestiário masculino
e começaram a xingá-la. Pendurou a toalha e despiu-se
para tomar banho. O coro agora era uníssono de elogios e
urros de euforia. Era dia de sorte, enfatizavam alguns e os que
entravam distraidos recebiam cotoveladas de aviso.
Ensaboava-se sem o menor pudor. Abusava do sabonete,
ele era ao mesmo tempo, o pincel e o ponto de fuga do quadro que
estava sendo desenhado. Abusava de shampoo, tanto que incomodou
os olhos. Sem problemas, Em caso de irritação lavar
em água corrente. Colocou o rosto perpendicular ao jato da
ducha e quando finalmente se livrou da irritação,
não viu mais ninguém no vestiário. Não
havia mais ninguém lá. Pegou, então, sua toalha,
enrolou-se nela e nesse momento, apenas nesse momento, as suas inicias
bordadas com linha cinza sobre o branco daquele retangulo ficaram
visíveis e legíveis.
"W.C."
® 2005 - Luís Eduardo E. Ribeiro
luisones@allflow.com.br
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