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João e o Pé de Feijão

Questionava se realmente valia a pena viver, mas, talvez por tanto ouvir o ditado, achava que a esperança seria a última a morrer. Quando estava sentado na sarjeta, logo após ter bebido um, dois, goles de pinga, confundia a ponta de esperança que mantinha com a pontada da fome.

Outro dia, revirando o lixo, encontrou um grão de feijão. Ele, na verdade, encontrou por volta de 187 grãos, mas esse não estava cozido, diferente dos outros, e também não estava misturado com arroz e vagem. Estranhou sua cor esverdeada, suas proporções transgênicas e, sobretudo, o brilho que emanava do grão.

Primeiro tentou morder, achando que poderia haver algum recheio, mas a casca não rompia nem amassava. Depois tentou arrombar, batendo uma pedra contra o grão. Por último, resolveu que o elemento orgânico desconhecido deveria ser atropelado pelos carros e, para isso, jogava o feijão no meio da rua, ali de seu assento de concreto. Por 3 vezes o grão fora atropelado e saíra de debaixo da roda direto na direção de João. Resolvou caprichar no 4o arremesso e o grão caiu pelas frestas de um bueiro.

Bateu com a língua no céu da boca para lamentar-se ahhh, quando surgiu do buraco um pé-de-feijão que crescia vigorosamente em direção ao céu. A força da planta era tanta que rasgava o asfalto com a facilidade com que se arranca uma folha de um galho. Sim. Era quase um conto de fadas, a única diferença é que era real. A viscosidade do pé-de-feijão fazia ele ter essa certeza.

Olhou para os lados e começou a subir. Que outra opção tinha ele? A primeira coisa que veio à sua cabeça foi sua 1a lembrança. Acredita que sua primeira lembrança foi a visita de uma tia, que trazia comida, e talvez por isso essa lembrança tenha marcado tanto. Ele nunca teve o que pode se chamar de uma refeição completa. E sua feição sempre mostrou isso.

Acima dele na árvore genealógica está sua mãe. Ela vivia falando de seu pai. Com qual vagabunda ele deveria estar, com cheiro de qual pinga a barba dele estaria. João Filho sabia de João pai. O pai nunca soube do filho. Nem desse nem de outros três, de outras mães, todos João.

As mãos começaram a doer, e isso lhe trouxe mais lembranças, de pistolas, de facas. Oferecidas para ele algumas vezes, seriam um modo de matar a fome, mas não queria criar sede de vingança em outras pessoas. A dor também lembrava a enxada e a farinha do almoço. A pá e a farinha do almoço. Subiu mais um pouco, parecia que tinha subido, não tinha certeza.

Agora estava sozinho, em direção ao desconhecido, se não fosse o único a subir este colossal pé de feijão, pelo menos seria o primeiro, e alguma surpresa o esperaria. Enquanto morava na rua, algumas pessoas o ajudaram, geralmente com restos de comida, em sacos, mas nesses casos definitivamente não era o primeiro, e a surpresa nem sempre era garantida.

Estava quase alcançando as nuvens, seu pé direito formigava mas agora ele tinha muita vontade. Seus movimentos eram acompanhados de urros de esforço. Ele ia conseguir, ele ia conquistar. O sonho de João nunca foi ser rico, ou poderoso. Tampouco queria ser famoso, estar na mídia até sua pele fazer bolha de tanta luz a que seria exposta. Ele queria ser lembrado, só isso. E nesse pé-de-feijão ele via esse objetivo, e falatava muito pouco. O que encontraria, enfim, acima das nuvens? Um castelo.

Ainda atravessando a neblina ele já avistava uma torre, uma ponta. Tentando ver melhor, perdera o equilíbrio mas o recuperara com a mão esquerda puxando forte o tronco da árvore contra o seu tronco. Subiu mais, o suficiente para ficar logo acima do mar branco que se forma lá no céu. Avaliou, teria mais uns 300 metros até o castelo.

Se esticou bem, segurou-se com um braço só num dos caules e esticou uma das pernas, usando a ponta do pé como mira para onde ia descer. Contou até 3 e se empurrou em direção a tudo isso, o que quer que fosse, que imaginava que faria com que sua vida não fosse mais a mesma.
Seu pé varou a nuvem, assim como o resto de seu corpo, afinal, nuvens são feitas de vapor de água e não dariam sustentação nem ao menor dos homens. Até o chão, agora, era questão de segundos. E sim, você vê o filminho da sua vida.


® 2005 - Luís Eduardo E. Ribeiro
luisones@allflow.com.br




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