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- início da 1a parte
Existe um rapaz chamado Luís Eduardo Eugênio
Ribeiro, e esta é sua biografia. Ele não existe de
verdade, já que na literatura os personagens existem apenas
nas nossas cabeças. E também, todo glamour dos textos
está na liberdade de imaginar os personagens como quisermos.
Então, ele mora numa cidade que chamaremos
de São Paulo que fica num país com nome árvore.
O país foi batizado dessa forma porque essa árvore
era muito abundante naquela região na época da colonização.
O nome da árvore "Brasil" tem algumas teorias controversas
sobre sua origem, mas a maioria delas atribuem o nome à forte
pigmentação vermelha que ela possui. Adoro quando
há uma história por trás do nome.
Por outro lado, por trás do nome Luís
Eduardo não há muita história. Talvez não
desse Luís Eduardo. Isso viria ao caso agora se houvesse
algum outro Luís Eduardo importante nesse mundo imaginário
de São Paulo. Ou do Brasil. Talvez se houvesse algum senador
ou filho de senador com esse nome, que tivesse um futuro promissor,
ou no mínimo rico, devido às origens da sua família
ou algo assim. Mas nesta minha história esse outro Luís
Eduardo já morreu.
Luís vive. Não sei o quanto é
possível comparar as coisas do mundo, mas ele vive mais que
os outros. Repare que falo no presente. Portanto, ele não
viveu mais do que ninguém e nem viverá. Há
alguns dias ele nasceu e continua nascendo até hoje. Um dia
ele pára de nascer, um dia ele pára de abrir o olho
e, principalmente, de levar tapas.
Ele, contrariando minha vontade de dar mais atrativos
à esta biografia-estória, não nasceu com um
olho na nuca, nem com a habilidade de andar pelas paredes. Ele também
não percebe quando você está mentindo, portanto,
se você disser que leu até o final e que achou a morte
dele, no último parágrafo deste texto, muito bonita
apesar de chocante, ele ficará feliz. Talvez até conte
aos amigos que sua morte foi admirada. Conta pra eles enquanto dormem,
no formato de sonho que não irão se lembrar. Também
assusta o gato com um olhar sombrio de quem morreu e voltou pra
contar como foi.
- fim da 1a parte
- início da 2a parte
Durante a infância sempre acreditou ser mais
novo do que realmente era. Até aí, normal. O curioso
é que quando completou seu primeiro ano de idade, tinha a
certeza absoluta de que não era nascido. Os anos, então,
se passaram como semestres que se davam as mãos.
Ah... as mulheres... Seu primeiro contato com mulheres
de outras famílias - não que essas não fossem
puras - foi algo de que ele jamais se lembrou. E talvez seja por
isso que essa passagem de sua vida não irá constar
nessa biografia. O curioso é que as mulheres míopes
não o vêem da maneira como deveriam. Mas isso não
vem ao caso agora. Nem depois.
Nas fotos com seus pais ele geralmente aparecia
vestido. Vestido de orgulho, vestido de anseios, vestido de alegrias,
vestido de esperanças, vestido de sorrisos, vestido de vontade
de viver, vestido com um brinquedo que não ganhou, e uma
bota ortopédica. Tudo isso o incentivava a pintar durante
o primário, entretanto, suas gravuras não transmitiam
sentimento algum. Seus desenhos tinham a estranha forma de algum
tipo de texto autobiográfico repleto de metáforas
metalingüísticas.
Nunca foi genial em suas colocações
na escola a ponto de questionar o porquê das perguntas ou
mesmo a real essência das dúvidas. No entanto, se lembra
claramente que no dia em que foram ensinados o "ba-be-bi-bo-bu"
e o "fa-fe-fi-fo-fu" sugeriu, com maestria, a palavra
"bife" para ser colocada na lousa. Percebeu que foi o
primeiro, e único até então, a juntar as duas
novas sílabas numa palavra só: 100% de eficiência.
Repetia baixinho "bife, bife", com um riso imperial. Tudo
isso, além de gerar-lhe uma grande sensação
de superioridade, lhe gerou fome.
Hoje de manhã, quando comecei a escrever
este texto sobre ele, reparei que se entusiasmou ao lembrar de quando
ele começou a escrever sobre ele próprio. Parecia
que tinha sido ontem. E nesses dias todos que conversei com ele
para poder finalizar este projeto, senti suas alegrias, amargurei
suas dores, vi através dos olhos dele e dormi com seu travesseiro.
Amanhã, na primeira hora do dia, irei mudar meu nome. E ele
terá uma bela história por trás.
- fim da 2a parte
® 2004 - Luís Eduardo E. Ribeiro
luisones@bigfoot.com
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