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Por trás das risadas - A história
de Patati
AVISO: O TEXTO ABAIXO É UMA OBRA DE FICÇÃO. SENDO MAIS ESPECÍFICO, UM CONTO HUMORÍSTICO SATÍRICO. Assim como os palhaços, só quero gerar boas risadas de quem ler este texto.
Todos conhecem a cantiga "Se você quer
brincar, é com Patatá; Se você quer sorrir,
é com Patati". Ela existe desde os anos 60 e jovens
dos dias de hoje ainda reconhecem esses versos. O que poucos sabem
é que por trás dessa máquina de gerar sorrisos
existiam pessoas de carne, osso e, sobretudo, sentimentos. Hoje
iremos contar a história de Agnaldo, o Patati.
Patati-Patatá era uma dupla de palhaços
formada, respectivamente, por Agnaldo Soares e Renato de Oliveira.
Ambos começaram trabalhando como animadores infantis, concorrentes,
no disputadíssimo mercado mineiro. Renato usava o nome artístico
de Palhaço Patatá enquanto Agnaldo se denominava O
Tirolez Sapeca. Após anos de boicote de ambas as partes,
resolveram discutir um modo de acabar com selvagem competição
que os cercava. Nesse dia resolveram juntar suas forças,
dominando 85% do mercado mineiro de animação de festa
infantil. Surigia aí "Patatá e O Tirolez Sapeca".
Alguns meses se passaram e consolidaram a liderança
absoluta com produtos premium e preços bem segmentados aliados
a uma estratégia conhecida como "quem gostou põe
a mão no nariz" de obter feedback dos consumidores.
Tudo isso fez com que, em meados de 1959, investidores cariocas
fechassem um contrato de 10 anos de radiodifusão de programas
infantis estrelado pelos dois. O contrato foi muito comentado pois
girava na cifra dos mil milhares de réis, perdendo apenas
para o contrato de 200 anos que Hebe estava fechando com a TV.
Por volta de outubro de 1959, uma equipe de especialistas
começou a desenvolver o formato, e inicialmente o programa
se chamaria "Os Dois Sapequinhas", dica de Agnaldo inclusive.
Mas Renato não abria mão de Patatá, seu apelido
desde a infância, e queria "Os Dois Patatá".
Depois de muita discussão, concordaram com "Patatá-Patatá",
mas Agnaldo, insatisfeito como não podia deixar de estar,
resmgungou baixo "Vai te catar". Num pulo, um dos produtores
exclamou "É ISSO, PATATI-PATATÁ". Nascia
a lenda.
Agnaldo sempre fora considerado o mais inteligente
dos dois. Nos intervalos de gravação estava sempre
com um livro na mão, normalmente de ciência política
ou econômica. Tentou entender a segunda guerra lendo a biografia
de Hitler e depois de deliciou com Maquiavel, Adam Smith, David
Ricardo, Stuart Mill, Keynes e, por fim, Karl Marx e o tal manifesto
pelo qual ele se apaixonou. Sua paixão era platônica,
no entanto, pois havia um vistoso contrato prendendo ele ao mundo
capitalista.
Voltando ao show, a famosa música que cantamos
até hoje era a sua abertura e ele ia ao ar de segunda a segunda,
ao meio dia. Durante os programas, Patati por algumas vezes tentou
ensinar o conceito da mais-valia às crianças brasileiras,
usando ovelhas e os ovos da galinha como exemplo. As crianças
davam risada. Depois do golpe militar, essas inserções
diminuiram consideravelmente, mas ele ainda insistia em pregar conceitos
vermelhos às crianças.
A rádio chegou a ser invadida diversas vezes,
sem mandato e com busca atrás de qualquer material propagandista
do comunismo. Em todas as vezes, todas as gravações
de Patati-Patatá foram confiscadas e posteriormente queimadas.
Na última vez, nem precisou ser confiscado para virar carvão,
pois um misterioso curto circuito iniciou a destruição
quase que completa da rádio, e nenhum material pode ser recuperado.
Nem o antológico programa de janeiro de 1967 com a participação
de Janis Joplin. Esse incêndio foi a gota d'água para
que o contrato fosse encerrado.
Livre de seu cabresto capitalista, Patati montou
um jornal clandestino de propaganda comunista com o dinheiro da
recisão do contrato e organizou um pequeno partido revolucionário.
O governo do Rio demorou um tempo, mas identificou quem era o cabeça
da orgnização. Sabendo disso, denominava o bando de
"Patati e sua Patota".
O jornal e o partido duraram cerca de 2 anos, cada
mês com mais filiados desaparecidos, e com frequentes incêndios
e confiscos da tiragem na hora da distribuição. Tudo
isso consumiu todas as economias do bem-sucedido animador infantil,
e, por não conseguir mais subornar agentes da ditadura, acabou
preso em maio de 1969.
Logo no primeiro ano identificou os "administradores"
da prisão e verificou todas os possibilidades de fuga e transferência.
Sabia quem liberava a entrada de coisas, e sabia todas as mãos
que precisavam ser molhadas para que alguém conseguisse sair
dali. Ajudou diversos camaradas a saírem andando, terem a
ficha apagada. Eles tinham alguém do lado de fora que mandasse
o dinheiro, e Agnaldo negociava a saída. Todo mundo lá
dentro já sabia e cantarolava "Se você quer fugir,
é com Patati".
Os anos foram cruéis com Agnaldo Soares,
que não tinha ninguém que olhassse por ele do lado
de fora das grades e também não tinha nenhum tostão
para subornar ninguém. Apodreceu 11 anos lá dentro
sendo liberado em regime condicional em janeiro de 1980. Sabia que
havia destruído todo o brilho que Patati-Patatá tinha
nas crianças. Sabia que tinha manchado o nome Patati para
todo o sempre.
Empregou-se, enfim, como o Palhaço Batatinha
num dos grandes circos de São Paulo, onde ficou até
falecer, em 1985 engasgado com um pedaço colossal de marmelada
que preparava para um número.
® 2005 - Luís Eduardo E. Ribeiro
luisones@allflow.com.br
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