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Sem Coração
Até teve alguns namorados. Primeiro o da
bicicleta, depois o da mobilete, aí o do carro, o do apartamento,
o que mandava flores, o que falava manso, o que beijava bem, o bom-de-cama.
Teve alguns simultaneamente com outros até. Portanto, esse
não era o problema.
Ela afirmava que a vida era um emprego, e que
batalhar era um modo de melhorar de vida. No entanto, assim como
no mundo proletário, há outros modos de subir na carreira,
como através de uma noite de sexo, por exemplo. Assim ela
vivia, subindo os degraus da vida nos ombros de outras pessoas.
E depois pisava nesse ombro também.
Normalmente era pouco motivada e pouco ativa,
se sujeitava a fazer o que lhe dispendesse menos esforço.
A não ser que surgisse uma briga. Não que fosse boa
de briga, mas aí as coisas ganham outros ânimos. Que
o mundo só se mexe por causa do ódio e da vingança,
era uma convicção que ela não precisava ter.
Estava estampado na pele dela, nas feridas que ela vingou, uma a
uma. Ela descobrira cedo que a vingança lhe dava muito prazer.
Uma outra mulher distraída pega a fila
da padaria pelo lado errado, aparecendo perto do guichê justo
na vez dela. A senhora é muito esperta, não? Furando
fila assim com cara de desavisada. Conheço o seu tipo. Ela
conhecia todos os tipos de pessoa. Um único tipo, os que
se acham mais espertos que os outros. Não havia quem ela
não achasse que ia querer tirar proveito dela. Ela não
se achava errada. Ela se achava precavida, e assumidamente mais
rápida que muita gente.
Quem conheceu ela imaginava que deveria ser algum
trauma, estranhavam tamanho medo de outras pessoas. Batiam nela
quando era criança, diziam alguns; alguém deve ter
puxado o tapete dela quando era moça, afirmavam outros. O
que acontecia agora é que ela estava cada vez pior de saúde,
mas não ia ao médico porque todos eles tem conchavo
com industrias farmacêuticas e estão sempre querendo
empurrar medicamento. Acham problemas onde não tem. Se acham
mais espertos que os outros, dizia ela.
Acordou morta numa manhã. O médico,
que nunca a tinha visto na vida, fez a autopsia, analisou bem e
comentou com o assitente. É, ela nunca teve um coração
bom.
® 2005 - Luís Eduardo E. Ribeiro
luisones@allflow.com.br
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